País está dividido: pobres com Lula e ricos contra ele

Pesquisas do DataFolha mostram como pobres e ricos estão em polos opostos no país hoje e as camadas médias estão divididas. A Folha, proprietária do instituto de pesquisas, escondeu o fato em suas reportagens. Mas as pesquisas são claras: pobres querem que Lula concorra às eleições e ricos não; pobres querem Lula presidente e ricos não; pobres têm taxa de rejeição a Temer muito superior à dos ricos. Veja os gráficos extraídos das planilhas do DataFolha: eles são taxativos –no Brasil, pobres de um lado, ricos do outro; e as camadas médias em disputa.

Por Mauro Lopes*

Nos dias 29 e 30 de janeiro, menos de uma semana depois da condenação de Lula pelos desembargadores do TRF4, em Porto Alegre, o DataFolha, instituto do grupo do mesmo nome, ouviu 2.826 pessoas em todo o país sobre três temas. Foi um campo único, mas apresentado nas páginas do jornal dos Frias como três pesquisas: sobre como a população vê o desdobramento da condenação de Lula, o impacto da decisão dos desembargadores nas intenções de voto para presidente e, finalmente, sobre a “popularidade” do governo Temer.

A constatação que emerge das pesquisas é taxativa –mas foi sonegada aos leitores da Folha nas reportagens: é a luta de classes que dá o ritmo da vida nacional hoje. Os pobres estão em posição diametralmente oposta à dos ricos.

Primeiro, quanto ao desdobramento da condenação de Lula do ponto de vista de sua presença na eleição presidencial.

Para 58% dos mais pobres do país (com renda até 2 salários mínimos), Lula deve ter o direito de concorrer; para 70% dos ricos (com renda superior a 10 salários mínimos), Lula deve ser barrado. O gráfico tem  uma evolução notável: quanto mais se sobe na renda, mais o desejo de ver Lula proibido de concorrer. O DataFolha interrompe a pesquisa no universo dos ricos numa faixa “mais de 10 salários mínimos” de renda mensal (mais de R$ 9.370,00), mas a linha indica que quanto maior a renda, maior deve ser o desejo de bloquear o direito de Lula concorrer. Seria interessante ter os dados para renda superior a 20 SM (R$ 18.740,00) e mesmo superior a 40 SM (R$ 37.480,00), onde seria possível capturar com mais nitidez a posição, de juízes, altos executivos do Estado e do setor privado, empresários e rentistas.

Veja o gráfico:

A situação é a mesma quando se observa a opinião das pessoas a partir do recorte sobre sua escolaridade. Num país ainda marcado pela herança da escravidão, aos pobres é negado o direito ao estudo formal. Os números são praticamente idênticos ao gráfico a partir da renda: 60% das pessoas que tiveram apenas acesso ao ensino fundamental (os mais pobres) desejam ter direito a votar em Lula; 59% dos que têm ensino superior querem barrar Lula. Os números são quase idênticos aos referentes à renda:

Quando se examina a intenção de voto para a eleição presidencial, o mesmo quadro. Quase a metade dos mais pobres (48%) declara intenção de voto em Lula. Apenas 21% dos mais ricos manifestam a mesma intenção.

Veja:

O quadro se repete no recorte por escolaridade. Lula tem quase a metade da população com acesso até o ensino fundamental ao seu lado (49%) e 23% dos que têm ensino superior:

Importante: assim se apresenta o cenário dos desejos do país enquanto a Lula tem sido massacrado pelos conglomerados midiáticos dos ricos (comandados pela Globo), sem direito a resposta ou mínima expressão. Imagine-se o que aconteceria se Lula tivesse acesso às mídias ou se tiver direito ao horário eleitoral gratuito e a debater com outros candidatos. É esse o medo-pânico dos ricos.

Uma questão crucial na disputa em curso no país e que as pesquisas indicam é a posição das camadas médias. Elas estão divididas, mas apresentam uma tendência antipática a Lula, provavelmente sob o impacto do fogo cerrado das mídias de massa contra Lula, o PT e a esquerda –todas as mídias de alto impacto estão sob controle das elites. Mesmo assim, defendem o direito de Lula concorrer 38% dos que recebem entre mais de 2 e até 5 salários mínimos e 33% da faixa imediatamente acima (mais de 5 SM e até 10). São 43% aqueles que têm ensino médio e querem que Lula concorra.

O cenário quanto à intenção de voto mostra também as camadas médias divididas: 28% dos que recebem entre mais de 2 SM e até 5 dizem que querem votar em Lula, número que cai para 22% na faixa entre mais de 5 SM e até 10. Dos que cursaram até o ensino médio, 34% afirmam que votarão em Lula.

Nestas camadas da população, mais aderentes ao discurso ideológico dos ricos, além da influência das mídias, temas que desgastem a arquitetura discursiva do golpe podem ter relevância, como a desconstrução do Judiciário. O Poder, apresentado ao país como paladino da Justiça, revela-se mais e mais como mero garantidor de privilégios dos ricos (juízes, procuradores e promotores entre eles).

Por fim, o olhar para Temer. Apesar de a rejeição ao governo do golpe ser brutal em todas as faixas, em função da destruição do país, o caráter de classe na avaliação é, mais uma vez, patente:  73% dos mais pobres (até 2 SM) consideram o governo ruim/péssimo – o índice cai para 58% na faixa de renda superior a 10 SM:

A luta está aberta; o país está dividido e as camadas médias em disputa. Quando a divisão será expressa em mobilização nas ruas? Parece uma questão de tempo.

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* Gilberto Maringoni foi a “fagulha” que acendeu o artigo, ao sugerir um olhar direto às planilhas do DataFolha; as ponderações de Antônio Martins quanto às camadas médias iluminaram a análise

 

 

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